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“Branquitude” enredada pela cultura negra

26/05/2010

Sensações, percepções, intuições: o afeto como fonte de conhecimento. Em tom igualmente ensaístico, Liv Sovik atribui a tais experimentações durante a sua estada em Salvador a motriz do seu mais recente livro.

A autora, professora da UFRJ

Situando neste terreno o conjunto de reflexões apresentadas em “Aqui ninguém é branco” (Aeroplano, 2010), Liv Sovik refere-se à Bahia trajada de sentimentos, como a própria música “aqui” produzida tantas vezes nos interpela a assim fazer. Aliás, uma curiosidade é que títulos como “Quando eu penso na Bahia” ou “Mas algum dia eu volto pra lá” também foram pensados, no entanto, foi em “Aqui ninguém é branco” que a estudiosa encontrou a síntese da sua crítica de âmbito mais sociológico às ambivalentes relações étnicas construídas não apenas na Bahia, como no Brasil de um modo geral.

E é aí que a música entra na análise da autora como narração privilegiada para se pensar esta ambiguidade “deslizante”. Segundo Sovik, músicas como a de Caetano  Veloso (especialmente em “Noites do norte”) e a de Daniela Mercury, se tornam referência da comunidade na medida em que delineia uma ficção sobre “quem é quem”, contudo carregando como pano de fundo o discurso dominante mais sofisticado, no qual a mistura étnica não chega a dissolver a hierarquização social entre o branco e o negro, ou o senhor e o escravo.

Ora, essas ficções são reconhecidas coletivamente, e só assim “O canto da cidade” pôde tornar-se o hino de Daniela Mercury, que, segundo Liv Sovik, apropria-se do prestígio da cultura negra, rediscutindo a mestiçagem mas evitando tocar na sua produção conflitiva. Para a autora, esse seria um novo jeito de ser branco e emerge daí a sua principal questão: em que circunstâncias certos ícones são autorizados como porta-voz da cultura negra?

Aqui ninguém é branco

Liv pontuou que seu livro de ensaios pode, à primeira vista, parecer uma crítica aos brancos, e muito possivelmente não é parte da sua pretensão com a publicação travar uma polêmica sobre essas questões. Ainda assim, foi possível perceber a sensação generalizada de desconforto, incômodo e perturbação, talvez justamente por tocar em referências tão locais e por isso mesmo profundas: em modos de ser e modos de ser-com na Bahia da “mistura”.

A palestra aconteceu no PAF 3 (UFBA), no último dia 24 de maio. O livro será lançado no encerramento do VI Enecult, no Palácio da Aclamação.

Para saber mais: resenha do livro publicada no A Tarde

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